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AMOUR – Um filme feito para falar de amor

Biblioteca Cultural 13 de março de 2018

armour

Amour é um filme de 2012, premiado pela palma de ouro, o maior prestígio do Festival de Cinema de Cannes. Nessa edição do Biblioteca Cultural, trouxemos a crítica desse filme tão sensível, feita pelo Omelete.

Poucos diretores contemporâneos são capazes de despertar tanta reflexão com tão pouco como o austríaco Michael Haneke. Em seu novo filme, Amor (Amour, 2012), o cineasta – cujas duas últimas obras obtiveram o prêmio máximo em Cannes – realiza uma aterradora, dura e emotiva contemplação do fim, que dá ao espectador todo o tempo do mundo para apreciá-lo.

O drama se passa quase que inteiramente dentro de um espaçoso apartamento, cuja mobília e decoração denotam uma vida inteira de bom gosto. Há arte por todos os lados, móveis de madeira pesada e uma preocupação especial com a qualidade da música, a grande paixão do casal idoso que ali vive. O aparelho de som moderno – mas ainda um CD player, físico – destoa sutilmente das cadeiras antigas e das “mantinhas” que aquecem os velhos em seu companheirismo de décadas.

O cenário, porém, aos poucos se transforma – mas apenas em contexto. Sem qualquer mudança além do equipamento hospitalar e dos rostos novos que surgem como apoio à esposa que definha, uma invasão à história gravada ali, o que era uma casa de pessoas cultas de outra época torna-se lentamente um mausoléu. A arte nas paredes vai ficando mais opressiva, os móveis, mais pesados e a habilidade de desfrutar da arte, adquirida com esforço e dedicação e acumulada como um conforto futuro, esvazia-se. Schubert vira “Sur le Pont, d’Avignon”, cantiga maternal de crianças francófonas. E no imponente hall de entrada, uma pomba teima em entrar (na cena mais silenciosa e agoniante do filme), como fazem essas aves em monumentos vazios.

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, os protagonistas, fazem um trabalho assombroso como Georges e Anne, músicos aposentados que seguem desfrutando a cultura erudita enquanto soam verdadeiramente apaixonados, com uma intimidade adquirida ao longo de uma vida. Até que um dia, sem qualquer aviso, ela sofre um derrame – e começa a lenta descida até o inevitável fim, em que, aos poucos, tudo desaparece, o bom-gosto, a dignidade, a identidade. Só o amor não evanesce – e Georges segue ao pé da cama, cuidando da esposa com devoção pragmática, aferreado a uma promessa.

Haneke é brilhante em suas escolhas, da abertura – que estabelece o que devemos esperar do filme – às cenas cotidianas de tratamento e os pequenos momentos de absurda tensão, que nesse cenário doloroso ganham proporções épicas, como o confronto com a enfermeira ou as discussões com a filha (Isabelle Huppert). A direção de atores é impecável, bem como suas escolhas estéticas e o roteiro incisivo. Como o protagonista, conhecemos o final, sabemos o que esperar da história, mas quando o golpe chega, ele é certeiro e esmagador.