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Começar agora um final feliz

Mandando Bem 13 de setembro de 2017

Gaúcho de Porto Alegre, Evaristo Afonso de Castro Junior fez sua vida em Curitiba, onde mora desde 1967. Da cidade natal, guarda afetos e recordações da infância. Quando tinha quatro anos, seus pais se separaram e aí começou uma jornada por vários lugares, viveu em São Gabriel, na fronteira com o Uruguai, foi com o irmão mais novo morar em Santo André, no Estado de São Paulo, voltou para a capital gaúcha até fixar-se na capital paranaense.

Evaristo relembra as brincadeiras da época de menino, jogar bola, andar de bicicleta e carrinho de rolimã, construir e soltar pandorga (nome que se dá às pipas no Rio Grande), e também das dificuldades: “entre os dez e doze anos passamos por sérias dificuldades, muitas vezes não havia o que comer. O vestuário era escasso, para calçar havia apenas um par de tamancos que só era usado em caso de muita necessidade.”

A saída encontrada por ele e por seu irmão para comprar alguma guloseima foi coletar ferro-velho e depois vender para um depósito próximo da casa onde moravam. Aos quatorze anos, já conciliava estudo no Senac e trabalho em uma ótica porto-alegrense.

Aos vinte e um anos, instalou-se, ainda que por pouco tempo, nas proximidades da sede do seu time do coração, a atual Arena da Baixada, onde brilha o Clube Atlético Paranaense. Logo começou a trabalhar como office boy, depois foi cobrador e funcionário do depósito de cargas de uma empresa de transporte. Em 1973, foi admitido pela Telepar e lá trabalhou até a aposentadoria. Recorda de um evento que se deu no departamento de engenharia da operadora telefônica: “o local era um barracão de madeira que abrigava as turmas de linha, cabistas e instaladores de telefones. Em uma das salas, foi colocada uma enorme quantidade de listas telefônicas. Naquela época, a maioria dos funcionários levava marmita para comer no serviço e, no horário de descanso, muitos deles jogavam truco no porão, justamente embaixo de onde ficavam armazenadas as listas telefônicas. Em determinado dia da semana, pouco tempo depois dos truqueiros terem deixado o porão, o assoalho, não aguentando o peso, cedeu. Se o pessoal ainda estivesse embaixo, com certeza, muitos teriam morrido”. Castro Junior afirma que na empresa fez muitos amigos, pois “o ambiente de trabalho sempre foi muito bom.”

Neste mês de setembro, ele completará quarenta e quatro anos de casamento com Eliana. É pai de dois filhos, Ana Paula, casada com Elio e mãe de Mariana, e Evaristo Neto, casado com Virginia e pai de Felipe Gabriel.

Pois bem, essa família feliz acolheu, abraçou e adotou Ana Victória, uma pessoa muito especial.

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Evaristo e Eliana já com os filhos criados tornaram-se voluntários da Associação Padre João Ceconello, que na época abrigava crianças em situação de risco no ambiente familiar.

Certo dia, a esposa recebeu uma ligação da instituição relatando a necessidade de que um voluntário se responsabilizasse por uma menina internada em um dos hospitais da cidade.

O quadro da pequenina era comovente, por falta de cuidados e pelos maus tratos recebidos, ela apresentava problemas neurológicos que afetavam a parte motora, havia tido meningite e apresentava um quadro de hidrocefalia, convulsões e epilepsia. Com o tratamento médico de excelência e o carinho da família que passou a visitá-la diariamente, Ana recebeu alta e pôde retornar ao abrigo onde morava.

Como seus parentes biológicos não a visitavam, a família Castro se responsabilizava por levá-la às consultas médicas e sempre estava presente quando qualquer outra necessidade surgia. “Aos poucos começou a nascer um sentimento maior entre ela e nós e, diversas vezes, quando íamos visitá-la precisávamos sair escondido, pois ela ficava chorando.”

A afinidade foi crescendo e Aninha começou a ser levada para passear na casa da família nos finais de semana. Até que, em 1998, surgiu a oportunidade de adoção, no entanto, era preciso tomar uma decisão rápida, pois pessoas que moravam na Itália manifestaram disposição em adotá-la.

Uma reunião familiar foi convocada e assim teve início o processo de adoção. Primeiramente, a justiça concedeu a guarda provisória e depois, em 9 de fevereiro de 1999, saiu a adoção definitiva.

Ainda estavam comemorando quando Ana precisou passar por uma cirurgia para colocar uma válvula de controle do fluxo de líquido no cérebro, em razão da hidrocefalia. Foram trinta e cinco dias de preocupação, vigília e fé na recuperação. Aos poucos, o quadro foi melhorando e Ana Victória voltou para o seu novo e definitivo lar.

A rotina de cuidados não é fácil, relata Evaristo: “a minha esposa não tem a força necessária para carregá-la. Eu faço tudo o que é necessário, trocar fraldas, colocá-la na cama, na cadeira de rodas, na cadeira de banho, mas quem dá o banho é a minha esposa.”

Atualmente, Ana toma remédios que mantém as convulsões sob controle, frequenta todos os dias um centro particular de reabilitação onde tem as terapias necessárias.

No entanto, ele prefere falar das recompensas: “apesar de todos os problemas, hoje a sua comunicação está bem desenvolvida, entendemos praticamente tudo o que ela fala e pede. Ana Victória é muito amada por todos nós, que procuramos fazer o nosso melhor para proporcionar-lhe o conforto. Ela é extremamente carinhosa com todos nós.”

Depois de compartilhar a sua história, Evaristo agradeceu a Fundação Sistel por “proporcionar o plano Bradesco Saúde, que tem sido de enorme importância”. E, ainda, dedicou aos leitores do Perfil Sistel esta frase atribuída a Chico Xavier:

“Embora, ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.”

 

 




  1. Antonio Roberto Sinott Lopes disse:

    Uma lição de vida.
    Parabéns Evaristo e Eliana.
    Vocês são pessoas de muita coragem.
    Graças a Deus.

  2. Evaristo A. Castro Junior disse:

    Eu, e minha família agradecemos por poder compartilhar um pouco de nossa estória.