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Cora Coralina, talento e perseverança

Biblioteca Cultural 4 de julho de 2017

O Brasil ainda não era republicano – viveria monárquico ainda uns poucos meses – quando nasceu Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que também ainda não era de todo Cora Coralina, em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás Velho.

Filha de um desembargador do império cursou apenas os quatro primeiros anos do ensino regular, o que não a impediu de iniciar-se na literatura aos quatorze anos. Começou por publicar em alguns jornais de Goiás e do Rio de Janeiro, mas em 1907 organiza, juntamente com Leodegária de Jesus, Rosa Godinho e Alice Santana, o semanário A Rosa, no qual dá vazão às suas produções.

Muda-se para Jaboticabal, no estado de São Paulo, em companhia do advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, com quem terá seis filhos. Em 1922, convidada por Monteiro Lobato a tomar parte na Semana de Arte Moderna é impedida pelo marido.

Anos depois, muda-se para a capital, ali, após a morte do esposo, trabalhará na Editora José Olímpio como vendedora de livros. Retornando ao interior, instala-se em Penápolis, passa a produzir e a vender linguiça caseira e banha de porco. Finalmente, no ano de 1956 regressa a sua cidade natal, onde trabalhará como doceira até seus últimos dias.

Aos 75 anos, após uma longa jornada como poetisa, esposa, mãe, vendedora e empreendedora, tem seu primeiro livro publicado Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais, onze anos mais tarde aparecerá Meu Livro de Cordel.

O reconhecimento nacional se dará apenas em 1980, quando o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna do Jornal do Brasil a respeito da segunda edição dos Poemas dos Becos: “Não estou fazendo comercial de editora, em época de festas. A obra foi publicada pela Universidade Federal de Goiás. Se há livros comovedores, este é um deles¹.”

Em 1983 veio à luz Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, o vate das alterosas grafará: “Minha querida amiga Cora Coralina: Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia […]” ². No mesmo ano, Cora Coralina recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás e o Troféu Juca Pato como intelectual do ano.

A trajetória de Cora Coralina explicita um valioso ensinamento: o talento precisa apoiar-se na perseverança para que a realização seja alcançada, por isso a vida exige de cada pessoa um permanente reinventar-se, como ela explica:

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
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e não entraves seu uso
aos que têm sede.

 

¹https://pt.wikipedia.org/wiki/Cora_Coralina

²https://cdeassis.wordpress.com/tag/semana-de-arte-moderna/




  1. Antonina disse:

    Sempre amei suas poesias! Foi uma mulher formidável para sua época!

    • Celeste Arrais disse:

      Olá Antônia,

      Grata pelo seu contato.

      São belas poesias mesmo. O exemplo de mulher e o legado de Cora Coralina são excelentes referências para nós mulheres.

      Abraços cordiais,
      Celeste Arrais

  2. Antonio Roberto Sinott Lopes disse:

    Grande Guerreira Cora Coralina. Uma mulher de vanguarda! Amei!

  3. maria de lourdes benarroz disse:

    Sao linha muito lindas que nos faz refletir a cada poema com simplicidade e ao mesmo tempo
    com muita profundidade.

    • Celeste Arrais disse:

      Olá Maria de Lourdes,

      Grata pelo seu contato.

      O simples, por ser feito de coração, nos traz inspiração e realização. Um Viva para esta grande poeta!

      Abraços,
      Celeste Arrais

  4. Sidália disse:

    Excelente poetiza