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Por que é preciso ir além do consumo consciente?

Minhas Finanças 14 de novembro de 2017

Quando se pretende assegurar uma vida sustentável, que beneficie a todos no planeta e, por consequência, dê segurança e bem-estar a cada um, é preciso avançar do consumo consciente para uma economia solidária. É o que defende a professora sênior da Universidade Federal de São Carlos, Ana Lucia Cortegoso, vinculada ao Núcleo Multidisciplinar e Integrado de Estudos, Formação e Intervenção em Economia Solidária (NuMI-EcoSol).

Ela explica que as pessoas que propõem a superação do modelo econômico dominante têm abandonado a expressão consumo consciente por duas razões: “ o consumo que interessa a mudanças sociais efetivamente relevantes não tem a conservação ambiental como única dimensão a ser considerada; a própria expressão (assim como consumo responsável) foi apropriada pela lógica hegemônica capitalista (e destrutora do ambiente, entre os muitos problemas que gera) como base para mais mercantilização, e a expressão parte, ainda, de que a promoção de práticas adequadas de consumo depende apenas de vontade pessoal e escolha individual, o que está longe de ser verdadeiro, e pode levar mais a culpas do que a um real enfrentamento dos problemas da denominada sociedade de consumo.”

Insistir na generalização do chamado consumo consciente pode alimentar a concepção equivocada de que será possível, por meio de suas práticas, “resolver um problema muito maior, com raiz na acumulação de ganhos para poucos em detrimento do mínimo necessário à vida digna para muitos. Por exemplo, cuidar corretamente dos resíduos sólidos decorrentes do consumo é uma obrigação de todos, mas é também fundamental entender que, nesse processo, quem mais ganha na cadeia de reaproveitamento ou reciclagem desses resíduos não é quem realiza a parte mais árdua dessa tarefa, os catadores individuais ou organizados em cooperativas, e sim as grandes corporações com capacidade de agregar valor ao material duramente recolhido e reunido por trabalhadores em geral precarizados e maltratados pela sociedade que nem reconhece o valor do serviço público que prestam à população.”

Por esses motivos, “no contexto da economia solidária”, é adotada a expressão consumo solidário, que leva em consideração além da conservação ambiental, “a construção de ambiente social igualitário, promovendo subjetividades menos centradas em posse e muito mais em relações […], já que a mera troca de expressão não resolve o problema”.

A partir dessas premissas, a professora Ana Lucia apresenta, na entrevista que concedeu ao Perfil Sistel, uma perspectiva crítica e propositiva objetivando estimular uma reflexão sobre a necessidade de redefinir valores, posturas e práticas da sociedade diante da economia.

Em uma sociedade capitalista, qual o papel do consumo consciente?

Sem questionar os valores da sociedade capitalista, consumo consciente pode significar, na verdade, apenas uma forma de aliviar consciências, sem contribuir para modificar a lógica que produz os problemas que a humanidade vive, em termos de esgotamento da natureza e desigualdade social, uma das origens, entre outros problemas humanos a elas vinculados, da violência social.

No entanto, as (más) práticas de indivíduos também podem colaborar para o agravamento dos problemas decorrentes da organização social hegemônica, mesmo que (boas) práticas individuais dificilmente tenham o impacto necessário para eliminar ou reduzir significativamente os problemas gerados pelo capitalismo concreto que vivemos, quando são corporações, pessoas com grande poder financeiro e gestores que têm o (muito) maior grau de controle sobre as fontes de dano ao ambiente e de desigualdade social.

Com tal ressalva, práticas individuais que podem ser consideradas mais favoráveis às mudanças necessárias para que a humanidade possa viver, e com dignidade, implicam em redução de consumo ao que realmente é necessário para o bem viver, contra o estímulo ao consumo (como motor desse tipo de sociedade que prepondera no mundo hoje em dia), escolha de produtos de mais baixo impacto ambiental, preferencialmente oriundos da própria região em que se dá o consumo e comercializados por estabelecimentos locais (reduzindo deslocamentos, fazendo a riqueza circular na comunidade que produz e que consome, por meio dos chamados ciclos curtos de produção e consumo), fortalecendo relações de confiança entre produtores e consumidores, cooperando para a prática do preço justo para todos etc.

As pessoas são motivadas a participar do mundo do trabalho com a perspectiva de consumir cada vez mais e conseguir todo o conforto oferecido pelos bens de consumo. É possível modificar essa mentalidade?

Não é tarefa simples, e muitos têm se esforçado para encontrar respostas; qualquer avanço é importante e nenhum suficiente para o tamanho do problema que as práticas de consumo estimuladas pela lógica da ganância causam. Nesse sentido, é fundamental atuar em todas as frentes, de modo que as pessoas estejam, então, conscientes, ou seja, compreendam o que está em jogo na lógica da acumulação (versus distribuição da riqueza produzida pela humanidade), qual o papel do consumidor nessa lógica, quais são as condições que influenciam suas próprias práticas de consumo (como indivíduo, responsável pela família, professor, produtor, consumidor etc.) e quais as que deveriam influenciar (para a construção de outra forma de organização da humanidade), bem como as consequências (de curto, médio e longo prazos, para si e para seus semelhantes, para as gerações presentes e, esperemos, futuras, para a natureza de que somos parte etc.) que são produzidas pelas práticas de cada um, mas também pelas práticas de milhões de seres humanos – sem deixar de lembrar que os (muitos) mais pobres usam muito menos dos recursos do planeta que os mais (relativamente poucos) muito ricos . Mudar práticas de consumo e agir para que elas sejam outras, implica em se engajar em mudanças relativas a formas de viver neste planeta, e adotar boas práticas de consumo na esfera de vida particular e do trabalho é necessário, mas não suficiente.

Quais são os valores que devem reorientar as pessoas nas relações de consumo?

Um valor essencial seria o de que todos os seres humanos têm igual direito a vida digna e de que as diferenças existentes entre as pessoas são muito menos relacionadas às suas vontades e capacidades e muito mais às oportunidades que tiveram ou têm em suas vidas. Algo nada simples, em uma sociedade que vende a ideia de que a competição é a única forma de alcançar a vida digna e que ter cada vez mais é um direito individual; nada mais falso, já que o maior patrimônio da humanidade, os recursos naturais, são de todos. Nesse sentido, economizá-los e gerar a melhor distribuição deles não deveria ser uma opção individual e sim um profundo compromisso de todas as pessoas, particularmente aquelas que têm mais. Reconhecer, ainda, que com recursos finitos, não há como alguns terem muito sem muitos terem pouco. E, finalmente, valores relacionados a uma nova hierarquia de importância, em que bens materiais sejam apenas e tão somente meios para atender a necessidades que não possam ser atendidas de outra forma; e que felicidade e bem-estar não têm relação com posses, e sim com relações entre pessoas.

O que diferencia o consumo consciente e consumo solidário?

No âmbito da economia solidária, conforme indicado anteriormente, as práticas tanto de comercialização quanto de consumo (complementares) têm recebido especial atenção, adjetivadas como solidário e não como consciente. Nesse sentido, também produtores da economia solidária têm recebido formação e sido estimulados a apresentarem práticas de consumo (pessoal e produtivo) solidárias (preferência para produtos locais e de outros produtores da economia solidária, redução de consumo, preferência por alimentos saudáveis e produção de baixo impacto ambiental; preferência por bens duráveis e por recuperá-los ao invés de sucumbir à lógica da obsolescência programada, inclusive gerando trabalho e perpetuando profissões como reparadores etc.); têm também assumido um importante papel de educadores e facilitadores em relação a práticas de consumo adequadas aos princípios da economia solidária, em relação a seus clientes. No contexto da economia solidária, são buscadas práticas de consumo que efetivamente sejam orientadas pela perspectiva de uma sociedade colaborativa, preocupada com o bem-estar de todos e não de cada um.

Poderia dar algumas dicas para que as pessoas adotem novos hábitos de consumo?

Sugiro que as pessoas, em relação ao seu próprio consumo, formulem-se perguntas como: eu necessito de fato disso que quero comprar (ou tenho guardado, por exemplo)? Quem produziu este item? Quem se beneficiou (e quem deixou de se beneficiar ou foi prejudicado) com a produção e a venda deste item? A quem desejo (ou prefiro) beneficiar quando compro itens de que necessito? Que impactos ambientais, relativos à natureza ou à sociedade, são gerados na produção destes itens? Na sua venda? No descarte dos resíduos que são gerados? Quais são os produtos e serviços que estão disponíveis na minha região? Quais aqueles que estariam, se recebessem apoio, inclusive de consumidores como eu? E que passe a responder essas perguntas na perspectiva de encontrar as melhores práticas possíveis, dentro das condições disponíveis em seu contexto, não apenas para seu próprio benefício, mas para a construção do mundo que desejamos (ou deveríamos desejar) para nossos filhos e netos, cujo futuro já está perigosamente ameaçado, inclusive por nossas próprias práticas de consumo, mas também pela nossa omissão no que se refere a como as coisas estão.

Saiba mais

A Mercearia Paraopeba desenvolve uma prática bem próxima do comércio solidário. Clique aqui para conhecer esse empreendimento.

Outras reflexões sobre o assunto podem ser encontradas no artigo “O império do consumo” de Eduardo Galeano (1940-2015).

Clique aqui para lê-lo.