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Um papo sobre viver o eterno agora

Mandando Bem 24 de março de 2017

A psicóloga Elza Pereira Bourne lembra quando deixou Alagoas, aos seis anos de idade viajou com a família em um pau de arara rumo ao Estado de São Paulo. Para trás deixou o sítio do avô e uma infância de muitas dificuldades, mas salpicada de alegrias: “eu tinha uma vida muito livre, morávamos numa casa bonita toda cercada de alpendres, num lugar alto, embaixo passava a linha do trem. No pasto tínhamos bois, vacas, cavalos e ovelhas, no quintal galinhas e perus, entre outros animais. As árvores frutíferas eram o melhor: mangueiras, cajueiros, jaqueiras, coqueiros… Havia um rio para nos refrescarmos, era tudo de bom. Tínhamos primos próximos para brincar. Todos os domingos íamos à missa pela manhã e após tinha um lanche, essa era a melhor parte”.

 

Depois de morar três anos na região da Alta Sorocabana, onde se estabeleceram por haver por ali familiares, chega a hora de tentar a vida na cidade de São Paulo. “Viajamos de trem até a Estação da Luz. Foi uma nova experiência numa cidade imensa. Anos difíceis na capital, meus irmãos mais velhos começaram a trabalhar para ajudar nas despesas da casa e pararam os estudos, só os mais novos continuaram estudando. Moramos de aluguel até meu pai comprar uma casinha de dois cômodos, só no tijolo, com a ajuda de minha irmã mais velha. Depois meu pai construiu um sobrado na frente, onde morei até o casamento”.

 

Aos quatorze anos, para ter dinheiro e comprar suas próprias roupas começou a trabalhar em uma fábrica de bexigas. Aos quinze, ingressou em uma tecelagem de onde foi demitida por motivos muito curiosos: “conversava e sorria muito”. A dispensa funcionou como um impulso, foi trabalhar como praticante de telefonista na Companhia Telefônica Brasileira – CTB.

 

Lá construiu sua carreira. Continuou a estudar e, aos vinte e um anos, foi promovida à inspetora de CPTC. Ainda cursava psicologia quando conversou com um instrutor do centro de treinamentos da empresa sobre o desejo de atuar na área. Após a análise de seu currículo e de uma entrevista foi chamada para atuar naquele setor: “foi uma promoção e tanto, meu salário quase dobrou”.

 

Passados nove anos começou a trabalhar com treinamento gerencial, desses tempos recorda: “tive mais oportunidades de desenvolvimento, muitos cursos pagos pela empresa, inclusive, pós graduação. No ano de 1990 fiz um curso nos Estados Unidos. Em 1992, quando me casei, consegui licença de um ano sem remuneração e fui morar em Londres, pois meu marido é inglês”.

 

E, assim, uma grande aspiração foi alcançada: “casar e constituir família”. Em sua primeira viagem à Europa conheceu Julian Leonard Bourne, engenheiro da British Telecom. Apaixonaram-se e, passados sete meses, casaram-se. Ao deixar Londres, o casal mudou-se para o Brasil trazendo ao colo a primeira filha, Natalie.

 

Essa nova etapa foi desafiadora, relata Elza: “meu marido não falava nada em português. Foram anos difíceis, ele começou a trabalhar como professor de inglês numa escola. Eu engravidei novamente e tivemos Thomas, que nasceu prematuro e foi uma grande surpresa. Após o nascimento soubemos que ele tinha síndrome de Down e paralisia cerebral, em consequência de sofrimento fetal durante a gestação. Foram anos de dificuldades e de um investimento enorme para facilitar o seu desenvolvimento”.

 

Os esforços foram recompensados: “Thomas andou aos cinco anos e desenvolveu a fala, pois contou com fisioterapia, terapia ocupacional, hidroterapia, equoterapia, psicomotricidade e de cirurgia para alongar o tendão. Hoje, com 22 anos, é um rapaz lindo e meigo que adora nadar na nossa piscina e estudar na APAE”. Natalie, a primogênita, está com 23 anos, se formou em psicologia e vai mudar-se para Inglaterra com o noivo.

 

Paralelamente a tudo isso, a paixão pela psicologia nunca foi esquecida: “é a minha vida, não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Trabalhar com pessoas para mim é mais que uma profissão, é a missão que abracei. E me qualifiquei muito bem para dar o meu melhor. Formei-me em massoterapia, acupuntura auricular e inúmeras abordagens terapêuticas para minimizar o sofrimento dos meus pacientes. Hoje, sou referência em Atibaia e região, além de receber pacientes de São Paulo. A minha filha chegou a dizer que a rival dela era a psicologia e não o irmão especial. Na verdade, a psicologia para mim é a filha mais velha”.

 

Aposentada da Telesp, desde 1998, nunca parou. Está sempre atualizada e buscando novos caminhos para levar os recursos da psicologia até às pessoas. Recentemente, lançou um canal no Youtube chamado “Um papo sobre…” no qual desenvolve, de forma descontraída e enriquecedora, temas como inteligência emocional, relacionamentos, educação das crianças, crise e emoções. Além de apresentar, faz a captação de som e imagem e, em breve, será a responsável pela edição do conteúdo. Clique aqui e interaja com o canal.

 

Elza é uma assistida da Sistel, o que considera “uma bênção”, a melhor decisão que tomou. “Com a minha idade, jamais conseguiria bancar um plano de saúde com o padrão da Bradesco Saúde Top para mim, meu marido e para o Thomas, que será sempre meu dependente por ser especial”.

 

Para os leitores do Perfil Sistel deixa o seguinte recado: “a nossa capacidade é ilimitada. Não importa a idade, quanto mais nós fazemos mais queremos fazer. Atendo no consultório uma média de quatro horas por dia, faço academia, yoga, caminhada, massagem, canto no coral e tenho aulas de teclado. Além das atribuições de dona de casa, mãe de filho especial e esposa. Ainda tenho tempo para meditar pelo menos vinte minutos às seis horas da manhã. Com tudo isso, não tenho tempo para envelhecer, procuro viver o eterno agora”.