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Uma trajetória de amor e trabalho

Mandando Bem 14 de novembro de 2017

Para dar sua entrevista, dona Joana escolheu a Igreja de São José, localizada no setor Lúcio Costa do Guará, cidade satélite de Brasília. O motivo da escolha é o movimento que não cessa em seu apartamento, transformado pela comunidade em centro improvisado de demandas sociais, segundo ela, “seria impossível conversar sem interrupção”.

O ritmo do seu dia a dia já pôde ser observado quando chegou. Logo desculpou-se pelo pequeno atraso, havia sido chamada com urgência para resolver “um problema da creche”. Rapidamente informa que precisará ir ao centro de saúde, assim seria mais prático conversar lá.

Ao entrar no centro de saúde, ficou clara a boa relação que mantém com trabalhadores e usuários. Um prestador de serviço comenta em voz alta: “a Joana é gente muito do bem!”

A intimidade com que ela transita em uma unidade do serviço público é chocante contraponto com as formalidades normalmente impostas aos cidadãos. Em sua presença, a burocracia é liquefeita e prevalece o relacionamento respeitoso e a cooperação.

A conversa com o Perfil Sistel começa com a sua apresentação: “Joana de Jesus de Oliveira, 70 anos, brasileira, baiana arretada, bem do sertão, de Baianópolis”.  Em razão da seca, mudou-se com a família, aos sete anos, para Goiás. Relata que a mudança “foi triste e bonita.”joana

O pai, agricultor e boiadeiro, cansado da estiagem decidiu realizar uma última plantação e, se nada produzisse, iria mudar-se, pois recebera propostas de trabalho. O quadro não prosperou e a decisão foi colocada em prática.

Na viagem de pau de arara, que demorou mais de quinze dias devido a problemas mecânicos no caminhão que fazia o transporte, houve um trágico acidente, no qual perderam a vida seu pai e sua irmã caçula.

Após este revés, a família instalou-se em Anápolis, onde Joana teve acesso, ainda que brevemente, aos estudos, pois recebeu uma bolsa em escola religiosa.

Passado algum tempo surgiu oportunidade para a sua mãe na capital federal, trabalhar como cozinheira na construtora responsável pela edificação do Brasília Palace Hotel e do Palácio da Alvorada. Nessa época, Joana e uma das irmãs transportavam marmitas pelos canteiros de obras equilibrando-as na cabeça. Desses tempos destaca que a luta materna para criar três filhas “foi muito grande.”

Após um breve retorno à Anápolis, Joana volta à Brasília e começa a trabalhar em uma casa de família pela manhã e, na parte da tarde, faz um curso de auxiliar de dentista, atividade que acumulará com os serviços domésticos. Paralelamente, começou a especializar-se como cabeleireira e maquiadora. Estudava à noite quando aconteceu o golpe de 1964. Relata que o período foi tumultuado, pois não era permitido aos estudantes se reunirem. Relata que, muitas vezes, com seus colegas precisou correr para escapar da repressão política feita pela polícia.

Não fez curso superior, mas orgulha-se da “faculdade da vida”, pois de “tudo o que é honesto” já fez. Alcançou êxito profissional atuando em empresa multinacional de produtos de beleza, e foi uma das primeiras maquiadoras do concurso Miss Brasil, quando era organizado pelos Diários Associados.

Entrou na Sistel para realizar um grande sonho: trabalhar como telefonista. Recorda que o processo de seleção foi bastante rigoroso, havia muitas candidatas para somente duas vagas.

4 de agosto de 1984, dia de sua contratação, é lembrado por Joana com muito orgulho e alegria: “Deus foi maravilhoso para mim, porque eu consegui ficar na Sistel por 16 anos.”

Recebeu homenagem por quinze anos de serviços prestados, mas diz que gostaria de ter chegado aos vinte, mesmo assim comemora: “valeu a pena, foi muito bom. Agradeço muito, muito mesmo!”

Joana destaca que frequentou diversos cursos oferecidos pela entidade para capacitação e qualificação, pois a prioridade da Fundação sempre foi tratar bem os assistidos e participantes.

Uma demonstração de amizade dos colegas, que guarda em seu coração, ocorreu quando adquiriu o seu apartamento no setor de moradias populares Lúcio Costa, naquela altura “eles se juntaram para fazer um chá de casa nova.”

O amor pelo lugar onde mora há trinta anos é declarado em palavras e ações. Quando se mudou para lá, “a creche ora funcionava ora fechava”, ao sabor das mudanças políticas. Eleita para diretora social da associação de moradores, resolveu organizar um movimento para que não houvesse mais paralisações. Atualmente, “é reconhecida como uma das creches modelo do Distrito Federal.”

Em homenagem aos 28 anos de trabalho voluntário como líder comunitária, tendo ajudado a conquistar praça pública, apoio jurídico gratuito, biblioteca e terreno para a construção da Igreja São José, a comunidade decidiu rebatizar a creche, que atende aproximadamente setenta crianças, com o nome de “Tia Joana.”

A família está em primeiro lugar, Joana cuidou de sua mãe até o falecimento dela aos 99 anos. Atualmente, cuida de uma tia com a mesma idade, contando com o apoio de suas irmãs. Fala com muito carinho de seus sobrinhos, especialmente dos “cinco tatara-sobrinhos-netos.”

Dirigindo-se à Sistel, parabeniza a passagem do aniversário de 40 anos da instituição, fala como aposentada-assistida e ex-colaboradora: “a Sistel, para mim, foi uma faculdade […]”. E deixa uma mensagem a todos: “trabalhar com amor: tudo que você faz com amor, você recebe com amor”.

 

Aproveita para agradecer aos ex-colegas que a ajudaram na manutenção da creche nos momentos de maior necessidade, e também aos dirigentes como o ex-diretor da Telebrás, Humberto da Silva Guedes e sua esposa Gilsa. E, finaliza, com um sorriso entre lágrimas: “meus amigos, vocês estão no meu coração. Um beijo no fundo do coração com muito amor, com muito carinho! Um beijo, também, a todos os aposentados!”



  1. Elza Pereira Bourne disse:

    Parabéns linda história Joana, me emocionei porque parece um pouco com a minha história de pau de arara, vinda de Alagoas para São Paulo, com mais sorte porque sobrevivemos os nove, a trajetória difícil e sem acidentes.
    O mundo precisa muito de anjos como você.